Não se sabe a data exata em que surgiu, ou mesmo o nome de seu inventor, as informações existentes contam que o Skate, ou melhor, a tábua com rodinhas, apareceu no início da década de 60 nos Estados Unidos, mais precisamente, na região de Malibu na Califórnia.
Nessa época marcada pelo movimento hippie e o lema de “Paz, Amor e Rock´n Roll” a Califórnia era um reduto de surfistas, onde os jovens simplesmente viviam o momento, não se importavam com o futuro e, a única preocupação era saber como estavam as ondas.
Conta a história que num período de flat muito longo (flat = período de tempo em que o mar não apresenta condições para a prática do surf), alguns surfistas tiveram a idéia de colocar os eixos de patins em tábuas de madeira para poderem surfar sobre o asfalto. Pronto, assim de maneira despretensiosa, surgia o skate.
Rapidamente a notícia se espalhou por toda a costa americana e por volta de 1965 os primeiros skates já eram fabricados em grande escala por lojas de surf. As marcas de maior destaque na época eram a Makaha, Val Surf, Pacific e Hobie.
Com esse primeiro boom, o skate se tornou conhecido e surgiu a necessidade de se cobrir toda essa cena que estava sendo formada. Revistas começaram a aparecer e as marcas da época passaram a montar equipes de skatistas. A Makaha Skateboards, marca de Larry Stevenson, montou seu time de skatistas e fez turnês por todo Estados Unidos, fazendo o esporte ganhar enorme popularidade, e o número de skates vendidos chegar a algo em torno de 50 milhões em um ano.
Com tanta gente praticando, campeonatos começaram a ser realizados para profissionalizar o esporte e, definir quem eram os grandes praticantes da época. Em 65 aconteceu o I Campeonato Internacional, realizado no estádio La Palma, em Anaheim, Califórnia. O campeão foi John Freeze. Os campeonatos daquela época eram muito diferentes dos realizados hoje em dia, como a qualidade dos skates ainda era muito baixa, poucas manobras eram realizadas e as disputas se concentravam no slalom – modalidade em que os skatistas tinham que contornar cones enquanto desciam uma ladeira e no freestyle, prática na época parecida com a patinação artística onde os skatistas realizavam rotinas em cima do skate.
Foi então que na década de 70, Frank Nasworthy descobriu o uretano, uma espécie de borracha sólida que aplicada na fabricação das rodas de skate, permitiu que os skatistas estendessem seus limites pois com essa nova rodinha era possivel realizar curvas mais semelhantes ao surf e o melhor de tudo com mais velocidade e controle.
O Skate alcançava a glória. Mania nacional entre as crianças, mercado estruturado, ídolos do esporte, diversas mídias especializadas e campeonatos sendo transmitidos por canais de televisão como a ABC.
Enquanto isso na região oeste de Los Angeles, na famosa rodovia 66 que beira o Oceano Pacífico, as praias de South Santa Mônica, Venice e Ocean Park formavam o decadente bairro conhecido como Dogtown, um lugar sujo e acabado, repleto de surfistas locais que formavam uma turma caracterizada pela atitude punk que ia contra o sistema e fazia questão de não se enquadrar nele.
Em 1972, os fabricantes de pranchas Jeff Ho e Skip Englomb se juntam ao artista plástico Craig Stecyk e criam a Jeff Ho & Zephyr Surfboards Productions uma fábrica localizada na avenida principal do bairro de Dogtown. Com uma proposta de ser diferente das demais marcas, os três começam a inovar no design e pintura das pranchas e formam uma equipe de surfistas e skatistas comprometidos com a evolução. Somente os mais radicais tinham lugar no Zephyr Team. Essa equipe composta por 12 skatistas ganhou o nome de
Z-Boys.
Foi então que um acontecimento determinou o rumo que o Skate tomou. Uma grande seca assolou a região da Califórnia, o que fez, as pessoas esvaziarem suas piscinas de fundo arredondado. Foi aí então que esses 12 garotos que tiveram a idéia de andar nestas piscinas que tinham o formato semelhante ao de uma onda. Dessa forma eles redefiniram toda a maneira de andar de skate.
As manobras, o estilo, a atitude, tudo era novo, os Z-boys tinham uma identidade própria forjada na região de Dogtown. Rapidamente eles se tornaram conhecidos nacionalmente pois, Craig Stecyk passou a publicar na revista Skateboarder os “Dogtown Articles”. Isso mexeu com a cabeça das crianças de toda a América, elas olhavam aquilo e se espelhavam naqueles skatistas que se tornaram ídolos, referências de toda uma geração.
Dessa turma, três skatistas se destacavam: Tony Alva, Stacy Peralta e Jay Adams.
A partir do Zephyr Team, a palavra de ordem no skate passou a ser evolução. As manobras aéreas se tornaram o foco e essa nova geração de skatistas aceitou o desafio e elevou o nível do esporte ainda mais. A principal modalidade passou a ser o vertical, praticada em pistas no formato de U, que simulavam a inclinação das piscinas. As marcas começam a realizar turnês ao redor do mundo e os skatistas se tornam verdadeiros rock-stars sendo ovacionados e admirados em todos os cantos do planeta.
Porém no fim da década de 70 a Revista Skateboarder, decide fechar suas portas e passa a cobrir o bicicross, nova febre das crianças norte americanas. Isso causou um enorme abalo no mercado, e a consequente diminuição dos praticantes. O skate volta a se tornar underground e os poucos praticantes que restaram enfrentam a falta de pistas e lugares para a prática do esporte.
Na década de 80 uma nova modalidade começa a crescer, é o street, que surge como resposta a essa falta de pistas. Os skatistas começaram a andar nas calçadas, escadas, bancos, corrimãos e outros obstáculos encontrados na cidade, redefinindo a forma de olhar e de se relacionar com a arquitetura urbana.
A revista Thrasher é lançada em 1981 e dois anos depois é a vez da revista Transworld Skateboard, ambas deram novo fôlego para o mercado, e os principais skatistas da época, Tony Hawk, Christian Hosoi, Lance Mountain, Natas Kaupas, Tommy Guerrero, Steve Caballero e Mark Gonzales começam a vislumbrar a possibilidade de viverem do esporte.
As pistas voltam a ser construídas e o skate já difundido no mundo inteiro chega ao seu auge na década de 90. Com circuitos mundiais sendo realizados, produtos de qualidade, diversos meios de comunicação próprios e skatistas profissionais ganhando dinheiro vivendo única e exclusivamente do esporte.
As marcas começam a investir na produção de vídeos de skate, para registrar a evolução técnica das manobras, criando uma nova cultura dentro desse universo. Em 1995 o skate volta a ganhar espaço na televisão, o canal de esportes ESPN cria o X Games, uma competição que réune os maiores nomes dos esportes radicais, esse campeonato ajudou a divulgar e melhorar a imagem do skate no mundo todo.
Atualmente o skate é um dos esportes mais praticados no mundo inteiro, com um mercado que movimenta milhões, tanto que as gigantes Nike e Adidas de olho nessa fatia, lançaram uma linha específica de calçados para skate. A internet ajudou a divulgar as marcas, seus atletas e manobras tornando os grandes skatistas ícones mundiais.
A cultura do skate que se expressa de forma autêntica e sempre com uma postura irreverente através das roupas, filmes, livros, músicas e artistas está cada vez mais em alta. O resultado disso é que quase 50 anos depois do surgimento do skate, estamos em um momento de revival, ou seja, um movimento de resgate das raízes do esporte, com a volta dos campeonatos em piscina e lançamento de diversos documentários que detalham toda a história da geração precurssora. Tudo isso, para mostrar as novas gerações qual é a real essência do esporte, e não deixar que ela se perca no futuro.